IATF passo a passo

Inseminação artificial em tempo fixo, do começo ao diagnóstico. O que acontece em cada dia do protocolo e o que precisa ficar registrado.

O que é IATF

Inseminação artificial em tempo fixo é o uso de hormônios para sincronizar a ovulação de um lote de fêmeas, de modo que todas sejam inseminadas em dia e hora marcados, sem depender da observação de cio.

A observação de cio é justamente o gargalo que a técnica remove. Uma circular da Embrapa Pantanal descreve a eliminação da obrigatoriedade da observação de cio como a principal vantagem da IATF, junto com a concentração das inseminações e das parições em épocas escolhidas, a padronização dos lotes por categoria e escore, e a redução do investimento em touros (Embrapa Pantanal, Circular Técnica 113).

O que a IATF não remove é a necessidade de anotar. O protocolo tem manejos em dias diferentes, com animais diferentes recebendo produtos diferentes, e o resultado só aparece semanas depois. Quem não registra chega no diagnóstico de gestação com um número e nenhuma explicação para ele.

A sequência do protocolo

Existem várias combinações de hormônio, dose e intervalo, e elas mudam conforme a categoria do animal, a raça e o que o veterinário responsável já viu funcionar naquela fazenda. Não existe um protocolo único para copiar daqui.

O que se repete em quase todos é a ordem das etapas:

  1. Início. A fêmea recebe uma fonte de progesterona, normalmente um dispositivo intravaginal, junto com um estrógeno. A progesterona segura a ovulação enquanto o lote se sincroniza.
  2. Retirada. Dias depois, o dispositivo sai e entram a prostaglandina, que desfaz o corpo lúteo, e o indutor de ovulação. Aqui costuma entrar também a gonadotrofina, quando a categoria pede.
  3. Inseminação. Algumas dezenas de horas depois da retirada, o lote inteiro é inseminado.
  4. Diagnóstico. Cerca de um mês depois, ultrassom animal por animal.

Para dar um exemplo com dias e doses, vale citar um esquema publicado, e não uma média imaginária. No protocolo usado nos experimentos da Circular Técnica 113 da Embrapa Pantanal, com vacas Nelore:

Dia O que acontece
D0 Dispositivo intravaginal de progesterona e 2 mg de benzoato de estradiol.
D8 Retirada do dispositivo, 150 µg de d-cloprostenol, 300 UI de eCG e 1 mg de benzoato de estradiol.
D9 À tarde, observação e marcação das vacas em cio.
D10 Inseminação, entre 44 e 48 horas depois da retirada do implante.

Um esquema de 2015 da Embrapa Rondônia usa a mesma espinha com outra composição no D8: prostaglandina, eCG e cipionato de estradiol, com a avaliação por ultrassom no dia 10. Duas circulares da mesma empresa, dois esquemas diferentes. É por isso que dia e dose saem da prescrição do veterinário da fazenda, não de um guia na internet.

O que registrar em cada etapa

A Embrapa Rondônia publicou, junto com a descrição da técnica, a lista de campos que devem estar na planilha levada ao curral: identificação do animal, raça, categoria, data do protocolo, o que foi feito no dia 0, no dia 8 e no dia 10, o sêmen usado e o diagnóstico de gestação (Circular Técnica 141).

Repare no formato. Não é uma linha por lote, é uma linha por animal, com uma coluna por manejo. É assim porque as perguntas que aparecem depois são todas sobre o animal: esta vaca entrou no protocolo? Recebeu eCG? Foi inseminada com qual touro? Deu prenhe?

O que precisa sobreviver à temporada:

No Campeio, o controle reprodutivo guarda os três no mesmo lugar: o ciclo de IATF nasce com as datas do protocolo e o touro, os animais entram no lote, e o DG é lançado animal por animal na sequência. Quem prefere caderneta ou planilha também consegue: o modelo de planilha de rebanho resolve o cadastro, e as colunas de manejo você acrescenta ao lado.

O diagnóstico de gestação

O ultrassom transretal fecha o ciclo. A circular de Rondônia recomenda o diagnóstico 30 dias depois da inseminação, com essas palavras: “trinta dias após a IATF, recomenda-se que as vacas sejam avaliadas por ultrassonografia para diagnóstico de gestação” (Embrapa Rondônia, Circular Técnica 141). Nos experimentos da Circular Técnica 113, o diagnóstico foi feito entre 30 e 45 dias depois da IATF, o que mostra a folga que existe na prática.

Registre o resultado por animal, não só o total do lote. Vaca vazia volta para repasse e vaca duvidosa precisa de nova avaliação, e essas duas listas só existem se o DG estiver preso à ficha de cada cabeça. Com o resultado individual em mãos, a taxa de prenhez do ciclo sai sozinha.

O que move o resultado

Alguns fatores já foram medidos em campo, com rebanho de verdade, e dão uma noção da ordem de grandeza.

Manifestação de cio. Em 5.491 vacas Nelore no Pantanal, as fêmeas que manifestaram cio antes da inseminação ficaram prenhes em 48,4% dos casos, contra 40,2% das que não manifestaram (Embrapa Pantanal, Circular Técnica 113). Marcar quem entrou em cio no dia anterior custa tinta na cauda e explica boa parte do resultado.

Escore de condição corporal. No mesmo experimento, entre as vacas observadas em cio, o grupo de escore moderado ficou em 49,5% e o de escore baixo em 46,5%. Entre as que não manifestaram cio, 42,1% e 38,0%.

Quem insemina. Numa fazenda do Pantanal com 553 vacas Nelore, dois técnicos trabalhando no mesmo lote chegaram a 49% e 38,4% de prenhez (Embrapa Pantanal, Circular Técnica 97). Mais de dez pontos de diferença sem trocar hormônio, sêmen nem vaca. Anotar o inseminador de cada animal é o que permite enxergar isso.

Nenhum desses números é a meta da sua fazenda. São resultados publicados de rebanhos com raça, região e manejo descritos, e servem para mostrar onde procurar quando o seu número não fecha.

Antes de comprar hormônio

Escreva o critério de entrada do lote antes de comprar qualquer coisa. A técnica da Embrapa Rondônia, por exemplo, foi desenvolvida para uma categoria definida de fêmea: “vacas multíparas lactantes da raça Nelore, a partir de 30 dias pós-parto (DPP) e escore de condição corporal (ECC) entre 2,5 e 4”, numa escala em que 1 é emaciada e 5 é obesa (Embrapa Rondônia, Circular Técnica 141). O critério da sua fazenda pode ser outro, e ele precisa ficar registrado junto com o lote, porque é ele que explica o número quando alguém perguntar por que a prenhez veio baixa.

Depois disso, converse com o veterinário responsável sobre quem estará disponível nas datas dos manejos e sobre quem vai anotar. A segunda pergunta parece a mais boba e é a que decide se a temporada seguinte começa sabendo de alguma coisa.

Se a resposta for “a gente anota depois”, o percentual sai no fim da temporada e ninguém consegue dizer por que ele deu no que deu.

Fontes

Este guia é material de apoio. Protocolo, produto e dose são prescrição do médico-veterinário responsável pela propriedade.