Como calcular a taxa de prenhez
A conta é simples. O que costuma dar errado é o denominador, e comparar safra com safra sem olhar o tamanho do lote.
A fórmula
Taxa de prenhez é o percentual de fêmeas prenhes sobre o total de fêmeas que estavam aptas à reprodução naquele período.
Taxa de prenhez = (fêmeas prenhes ÷ fêmeas aptas) × 100
Vinte e sete prenhes em quarenta aptas dá 67,5%. A conta é essa, e ela não muda de fazenda para fazenda. O que muda, e o que provoca quase toda discussão sobre o assunto, é quem entra no denominador.
Concepção e prenhez não são a mesma coisa
Um capítulo da Embrapa sobre manejo reprodutivo separa os dois índices assim: a taxa de concepção é o número de vacas gestantes sobre o total de vacas que foram inseminadas ou cobertas, enquanto a taxa de prenhez é o percentual de fêmeas prenhes sobre o total de fêmeas aptas (Embrapa, “Manejo reprodutivo”, em Pecuária leiteira na Amazônia).
O mesmo texto liga os dois pela taxa de serviço, ali definida como o percentual de fêmeas inseminadas ou cobertas sobre o total de aptas num período de 21 dias. Essa janela de 21 dias e o capítulo inteiro são de gado de leite, mas a relação entre os três índices vale igual para corte:
Taxa de serviço × taxa de concepção = taxa de prenhez
Daí sai o motivo de a distinção importar tanto no dia a dia. A taxa de concepção mede a qualidade do serviço: a fêmea, o sêmen, o inseminador, o momento. A taxa de prenhez mede tudo isso mais uma coisa que a concepção ignora, que é quantas fêmeas aptas chegaram a receber serviço nenhum.
Uma fazenda pode ter concepção alta e prenhez ruim ao mesmo tempo. Basta que metade das vacas aptas tenha ficado de fora da estação por falha de detecção de cio, por escore baixo, ou porque ninguém as trouxe para o curral no dia. A conta que ignora essas fêmeas premia justamente o erro que custou mais caro.
O denominador é onde a conta erra
Antes de comparar qualquer número com o de qualquer pessoa, defina duas coisas por escrito.
Quem estava apta. Fêmea recém-parida ainda dentro do puerpério, novilha que não atingiu peso, vaca que entrou vendida no meio da estação. Cada uma dessas decisões muda o resultado em pontos inteiros, e nenhuma delas é errada por si só. O que não pode é mudar de um ano para o outro sem ninguém registrar.
Qual foi o período. Prenhez de um ciclo de IATF, prenhez da estação de monta inteira com repasse, prenhez do ano. São três números diferentes da mesma fazenda, e o maior deles tende a ser o da estação inteira, porque acumula o repasse com touro em cima da inseminação.
Uma circular da Embrapa Pantanal ilustra o tamanho da diferença: numa fazenda com 553 vacas Nelore, a taxa de prenhez ao final da estação de monta, depois do repasse dos touros, foi de 79,8%, sendo que quase metade das vacas ficou prenhe pela inseminação no começo da estação (Embrapa Pantanal, Circular Técnica 97). Se alguém comparar esse 79,8% com a prenhez de um ciclo de IATF isolado, a comparação não diz nada.
Lote pequeno mexe muito o número
Em um lote de 20 fêmeas, cada animal vale 5 pontos percentuais. Uma vaca a mais ou a menos joga o resultado de 55% para 60% sem que nada tenha mudado no manejo. Em 200 fêmeas, o mesmo animal vale meio ponto.
Isso é aritmética, não estatística fina, e tem uma consequência prática: variação de alguns pontos entre duas safras de lote pequeno não é sinal de nada. Antes de trocar de protocolo por causa de uma queda de seis pontos em 30 vacas, confira se a queda são duas vacas.
Duas defesas contra esse ruído:
- Guarde o numerador e o denominador, não só o percentual. “62%” perdeu a informação. “23 de 37” ainda dá para reinterpretar depois.
- Junte os ciclos. Três lotes de 30 se comparam melhor com três lotes de 30 do ano anterior do que um a um.
Que número é bom
Não existe um “número ideal” que sirva de régua para uma fazenda que você não conhece. O que existe é resultado medido em rebanho específico, e ele só serve de referência com a etiqueta junto: que raça, em que região, sob qual manejo.
Uma circular da Embrapa Rondônia registra que a fertilidade de vacas submetidas a protocolos de IATF no Brasil se estabilizou nas duas décadas anteriores a 2015, com taxas de prenhez entre 40% e 60% (Embrapa Rondônia, Circular Técnica 141, citando Meneghetti et al., 2009 e Sá Filho et al., 2009). A mesma circular relata que a técnica de IATF em blocos, desenvolvida ali, alcançou média de 64% de prenhez, entre 10 e 20 pontos percentuais acima da IATF convencional nas mesmas condições.
Trate essas faixas como ordem de grandeza. A régua que decide alguma coisa na sua fazenda é a sua própria série histórica, com o denominador definido do mesmo jeito todo ano.
O que fazer com o número depois
Taxa de prenhez sozinha diz que algo aconteceu, não o que aconteceu. Para virar decisão, ela precisa quebrar em recortes, e cada recorte depende de um dado que alguém anotou antes do DG:
- Por categoria. Novilha, primípara e vaca multípara respondem diferente e são problemas diferentes.
- Por escore de condição corporal. Num experimento com 5.491 vacas Nelore no Pantanal, entre as fêmeas observadas em cio a prenhez foi de 49,5% no grupo de escore moderado e 46,5% no de escore baixo; entre as que não manifestaram cio, 42,1% e 38,0% (Embrapa Pantanal, Circular Técnica 113).
- Por inseminador. Na fazenda das 553 vacas, dois técnicos no mesmo lote fecharam 49% e 38,4% (Circular Técnica 97).
- Por touro ou partida de sêmen.
Nenhum desses cortes existe se o DG foi anotado como total do lote. Eles exigem o resultado preso ao animal, com a categoria, o escore e o inseminador daquele dia.
É o que o controle reprodutivo do Campeio faz: o ciclo de IATF guarda quais fêmeas entraram, o DG entra animal por animal como prenhe, vazia ou duvidosa, e a taxa de prenhez do ciclo aparece com o denominador à vista enquanto os diagnósticos são lançados. Se o seu ciclo ainda vai começar, o guia de IATF mostra o que registrar em cada manejo para que esses cortes existam depois.
Quem prefere planilha consegue o mesmo, com mais trabalho: uma linha por fêmea, uma coluna para apta, uma para serviço e uma para o DG. O modelo de planilha de rebanho já traz o cadastro pronto para receber essas colunas.